Debates e estudos de temas relacionados a direito e processo do trabalho. Pesquisas e críticas acadêmicas. Referencial teórico e jurisprudencial. Democratização do ensino. Pluralização do perfil da magistratura. Finalidade pedagógica e vocacional. Promoção da cidadania, dos direitos humanos fundamentais e de iniciativas de acesso à justiça.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Espiral da complacência: rotineirização dos riscos laborais

 

Espiral da complacência: rotineirização dos riscos laborais

Como categoria analítica aplicada à prevenção de acidentes, a espiral da complacência (spiral of complacency) descreve o processo gradual pelo qual a familiaridade com atividades perigosas reduz a percepção de risco, fragiliza a vigilância e normaliza condutas inseguras. Trata-se de fenômeno relevante para a saúde e segurança no trabalho, pois evidencia que acidentes raramente decorrem de um evento isolado, mas de um encadeamento de pequenas tolerâncias, desvios e excessiva confiança operacional.

O termo complacência deriva do latim “complacere” (agradar, satisfazer), e, no uso contemporâneo, designa condescendência excessiva, indulgência ou tolerância imprudente diante de falhas e riscos. No ambiente laboral, essa condescendência se manifesta quando trabalhadores, supervisores ou organizações passam a aceitar práticas inseguras como normais, seja por pressão produtiva, rotina consolidada ou percepção equivocada de controle.

Sob a perspectiva da saúde e segurança ocupacional, a complacência compromete a cultura preventiva ao reduzir a percepção de perigo e enfraquecer barreiras protetivas. Nesse contexto, evidencia-se a inadequação de explicações simplistas baseadas exclusivamente no “ato inseguro” do trabalhador ou na tese de “culpa exclusiva da vítima”. A espiral da complacência demonstra que comportamentos inseguros frequentemente emergem de fatores sistêmicos, organizacionais e culturais que favorecem a normalização do risco, transferindo indevidamente ao trabalhador a responsabilidade por falhas estruturais.

Entre os principais aspectos da espiral da complacência, destacam-se: I) Piloto automático – execução mecânica das tarefas, com perda de atenção consciente; II) Auto-satisfação – sensação de domínio decorrente da repetição sem incidentes; III) Falsa sensação de segurança – percepção equivocada de que o risco está controlado; IV) Aceleração e cegueira do risco – aumento da velocidade operacional e redução da percepção de perigos; V) Degradação silenciosa – deterioração gradual dos padrões de segurança; VI) Negligência contagiosa – disseminação de práticas inseguras por imitação e normalização social.

Esse fenômeno opera por meio de um ciclo progressivo, que pode ser descrito da seguinte forma: estabilidade e rotina geram redução da vigilância; esta favorece a criação de atalhos operacionais; tais atalhos conduzem à normalização do desvio; o sucesso aparente reforça o excesso de confiança; segue-se o relaxamento dos padrões de segurança; aumenta-se a vulnerabilidade sistêmica; e, por fim, ocorre a falha ou incidente. A repetição desse ciclo aprofunda a espiral e amplia o potencial lesivo.

A literatura e a prática prevencionista destacam que a familiaridade excessiva com tarefas perigosas reduz a percepção de risco. Quando os procedimentos de segurança se tornam automáticos e rotineiros, com familiaridade excessiva na execução de tarefas perigosas, os funcionários diminuem a atenção e a percepção de cuidado, aumentando a probabilidade de ocorrência de acidentes no local de trabalho. Essa dinâmica é enfatizada pelo especialista em segurança do trabalho Mauricio Louzada, que destaca a complacência como fator silencioso e progressivo de degradação da segurança organizacional.

A ruptura da espiral da complacência exige intervenções estruturais e culturais. Entre as estratégias preventivas destacam-se: manutenção permanente do senso de urgência preventiva; adoção de uma “paranoia saudável” voltada à identificação de riscos latentes; valorização e análise sistemática dos quase acidentes (near misses) como indicadores precoces de falhas; fortalecimento de uma cultura de feedback aberto e não punitivo; implementação de treinamento contínuo; e utilização de metodologias de treinamento ativo, com simulações e participação prática, capazes de restaurar a atenção consciente e a percepção do risco.

Sob a ótica jurídica e prevencionista, compreender a espiral da complacência contribui para deslocar o foco da culpa individual para a responsabilidade sistêmica, reforçando o dever empresarial de gestão ativa dos riscos ocupacionais e de promoção de uma cultura de segurança efetiva, contínua e participativa.

___________________

Fontes utilizadas

DEKKER, Sidney. The field guide to understanding human error. 3. ed. Boca Raton: CRC Press, 2014.

GELLER, E. Scott. The psychology of safety handbook. Boca Raton: CRC Press, 2001.

HOPKINS, Andrew. Safety, culture and risk: the organisational causes of disasters. Sydney: CCH Australia, 2005.

INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO). Guidelines on occupational safety and health management systems: ILO-OSH 2001. Geneva: ILO, 2001.

LOUZADA, Mauricio. Behavior 360, 2018.

LOUZADA, Mauricio. Espiral da complacência. Vídeo (aula 2). Disponível em: <https://vimeo.com/548133841>. Acesso em: 17 fev. 2026.

REASON, James. Human error. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

VAUGHAN, Diane. The Challenger launch decision: risky technology, culture, and deviance at NASA. Chicago: University of Chicago Press, 1996.

WEICK, Karl E.; SUTCLIFFE, Kathleen M. Managing the unexpected: resilient performance in an age of uncertainty. 2. ed. San Francisco: Jossey-Bass, 2007.

___________________

Nota de autoria

Texto de autoria de Wagson Lindolfo José Filho.

0 comentários:

Postar um comentário