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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Mal de Alzheimer


Mal de Alzheimer

Pela minha experiência como juiz, sempre acreditei que a melhor forma de solução de litígios, sobretudo aqueles que decorrem da prestação de serviços no âmbito doméstico, é justamente a entabulação de uma conciliação, desde que seja algo natural e sem nenhum tipo de imposição. Ganha-se mais com um mal acordo do que uma boa batalha judicial.

Definitivamente, o trabalho do lar não é uma tarefa fácil, envolve uma multiplicidade de sentimentos e emoções, além de um mourejo constante para o bem-estar de outras pessoas. Trata-se de uma relação muito próxima, em que se presta serviços no refúgio familiar alheio mais íntimo, com um laço muito tênue de confiança entre os partícipes deste liame, geralmente de classes sociais distintas.

Em dado dia, deparei-me com uma situação um tanto quanto peculiar. Na audiência inaugural de uma reclamação trabalhista em que se discutia vínculo empregatício doméstico (salários, horas extras e verbas rescisórias), após realizado o pregão, indaguei os presentes acerca da possibilidade de um acordo. Como de praxe, expliquei as vantagens de uma composição e a desnecessidade de continuação da demanda. Foi quando, em um ímpeto de irresignação, a representante da reclamada, uma jovem senhora, disse:

- Excelência, isso aqui é uma palhaçada! Ela trabalhou para a minha mãe por vários anos e me viu crescer. Era como se fosse da família…

Pedi para que os ânimos ali se acalmassem. Mas não adiantou muito, já que a parte ré estava bastante transtornada com os fatos declinados na petição inicial.

- Ora, a minha mãe fazia tudo certinho, preto no branco! Anotava e pagava como manda a lei!

Resolvi deixar ela falar, numa espécie de válvula de escape para que a parte extravasasse todas as suas angústias e ficasse ainda mais susceptível ao acordo.

- Sacanagem, utilizar a confiança das pessoas para se beneficiar. A minha mãe sofre de Mal de Alzheimer, por isso que ela não se recorda em que local guardou todos os recibos de pagamento e folhas de ponto...

Quando me deparo com informações deste tipo, verifico a postura da parte contrária. A reclamante manteve-se cabisbaixa o tempo todo, não demonstrando nenhum tipo de reação. Talvez pelo constrangimento da situação. Talvez por sua condição humilde. Apenas talvez.

Depois de um quarto de hora, inclusive por meio de muito esforço dos causídicos, foi feito um acordo. Não direi que todos saíram satisfeitos. Também não direi que essa foi a solução mais justa. Porém houve o apaziguamento de um conflito social.

Solidarizei-me, então, com a doença que aflige a patroa e disse para a filha:

- Por vezes fazemos um acordo mesmo sabendo que estamos certos, isso não significa derrota ou prejuízo, mas que agimos conforme os nossos valores mais nobres em prol de um mundo melhor. Jamais se esqueça de sua humanidade. Tenha orgulho de sua mãe e aproveite cada minuto de lucidez dela, amando-a sempre!

Naquele dia apenas tentei fazer a minha parte.

Wagson Filho

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